A controvérsia religiosa mais intensa do mundo sempre foi entre as religiões do tipo faça-você-mesmo e as que defendem que só Deus pode salvar. O homem está sempre tentando salvar-se e ir para o Céu através de suas obras, com apenas uma ajudinha de Deus, para assim atribuir a si mesmo a maior parte do mérito e fazer o que bem entende.
O primeiro homicídio foi cometido por um adepto da religião faça-você-mesmo: Caim o primeiro filho do primeiro casal, Adão e Eva. Caim decidiu que ofereceria, a seu modo, um sacrifício a Deus. Em vez de ofertar-Lhe um cordeiro como Ele havia pedido, decidiu criar suas próprias normas e que essa seria sua religião. Mas os frutos e os legumes tirados da sua lavoura, os produtos do seu trabalho, sua própria justiça, desagradaram Deus e foram rejeitados. Enquanto isso, Abel, irmão de Caim, simples e humildemente sacrificou um cordeiro, conforme havia sido instruído. E quando a oferta de Abel foi aceita e a de Caim rejeitada, este ficou de tal forma irado, que matou o irmão (Gênesis capítulos 4). E assim começou a perseguição que a falsa igreja desde então inflige à verdadeira. Caim era um homem muito religioso que tentava salvar-se à sua maneira. Oferecia sacrifícios a Deus e afirmava adorá-lO, além de fazer o melhor que podia para conquistar a própria salvação! Contudo, o seu melhor não foi o bastante, porque em vez de fazer o que Deus queria, agiu como fazem todas as falsas religiões.
Os adeptos das falsas religiões fiam-se na bondade que pensam ter e na sua própria maneira de agir. A maioria afirma adorar a Deus e busca um pouquinho da Sua ajuda para conseguir a salvação. Essas pessoas trabalham tanto para conquistar a salvação, que deduzem que a merecem, com ou sem a ajuda de Deus, e ficam muito ofendidas quando parece que Ele não dá valor à sua bondade. “Veja só tudo o que fizemos por você, Deus. Nós merecemos uma medalha! Nós realmente merecemos ser salvos! Se há alguém que Você deveria salvar, somos nós! Se alguém vai para o Céu, certamente seremos nós!”
Abel, por outro lado, limitou-se a fazer o que Deus lhe disse e “ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim” (Hebreus 11:4), ou seja, o sacrifício de uma fé pura no que Deus lhe dissera. Ao sacrificar um cordeiro, que exemplificava a morte que Jesus haveria de sofrer na cruz pelos pecados do mundo (João 1:29), provou estar confiando apenas em Deus para ser salvo. Abel sabia que só podia depender da justiça que vinha de Deus, que ele próprio não era justo e que a salvação era exclusivamente uma dádiva divina (Efésios 2:89).
A humildade do sacrifício de Abel tornou tão óbvia a futilidade do irmão e todo seu trabalho árduo, um homem que venceu pelo próprio esforço e um religioso devoto à sua própria forma de adoração, e expôs de tal forma a hipocrisia dos esforços de Caim que este ficou furioso. Depois de todo o trabalho que tivera, depois de todas aquelas obras da carne e com toda sua maneira legalista de pensar e de exigir a salvação em troca de tudo que fizera, Caim sentiu-se tão humilhado que tentou eliminar a terrível verdade de que a sua religião falhara em salvá-lo, então resolveu matar o homem cuja simples fé na graça de Deus o desmascarara.
E assim começou a grande batalha entre o orgulho e a humildade, entre os religiosos condenados e os pecadores salvos -a guerra perpétua que desde então é travada entre a igreja falsa e a verdadeira, entre a carne e o espírito, entre obras e fé, lei e graça, ego e Deus.
Esse conflito gerou alguns dos piores mal-entendidos e interpretações errôneas das Escrituras que já se viu. Desde então, muitas pessoas têm tentado obter a própria salvação, agradecendo a Deus o mínimo possível e distorcendo as Escrituras para provarem que podem “chegar lá”. Mas Deus não pode ajudá-las a se salvar. Ele não ajuda aqueles que acham que podem se ajudar, somente os que reconhecem sua incapacidade de produzir a própria salvação. Não podem se salvar, por mais que tentem obter ajuda divina para fazê-lo do seu jeito.
Eu também, nos meus primeiros tempos de convertido, passei um tempo iludido pela doutrina enganadora da insegurança eterna, ensinada por algumas igrejas e “religiões de obras”. A doutrina da “salvação transitória” segundo a qual a pessoa ora é salva, ora não”. Até o dia em que, ainda na adolescência, fiquei maravilhado ao descobrir a simples verdade de João 3:36. Depois de anos me sentindo desanimado e derrotado, inseguro da minha salvação, descobri que tudo que tinha de fazer era crer. Isso bastava! Jesus disse: “Aquele que crê no Filho, tem a Vida Eterna” -no ato! É incondicional, sem essa de “desde que se comporte e vá à igreja todos os domingos”, e nada dessa história de ser santinho e perfeito.
Eu não tinha conseguido me salvar e parecia que quanto mais tentava ser bom, pior ficava. Como o apóstolo Paulo lamentou: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (Romanos 7:24-25).
Era só isso, mais nada. Não existia outro jeito. Não tinha nada a ver com a minha retidão, com eu ser bonzinho ou fazer boas obras. Nada disso podia me salvar ou me manter salvo! Somente Jesus pode fazê-lo! Ele não somente teve que me salvar, mas também fazer as boas obras por intermédio de mim. Tudo deveria ser uma obra dEle, nada de mim mesmo, da minha bondade ou justiça própria -só Jesus. Fiquei muito aliviado ao entender isso, pois sabia que, de outra forma, nunca conseguiria. Tinha de ser Deus. Como eu simplesmente não tinha condições de me salvar, Ele me salvou!
O problema com muitos cristãos hoje em dia é que ainda vivem de acordo com o Antigo Testamento. O seu cristianismo é uma religião de obras. Já faz anos, ouvi falar que alguns missionários que foram para terras distantes e, ao chegarem, foram questionados pelo povo da região: “Vocês são cristãos do Antigo Testamento ou do Novo Testamento?” No princípio os estrangeiros não entenderam o que queriam dizer, mas depois descobriram que um “cristão do Antigo Testamento” era o que enfatizava templos, cerimônias, formalismo, tradição—aqueles cuja religião era centrada nas obras. Já um “cristão do Novo Testamento” não dava tanta importância às coisas que se vê, como edifícios, pompa e posição social, mas sim às coisas invisíveis do espírito, à simplicidade do cotidiano de um cristão, como a vida de Jesus e de Seus discípulos. Certamente, é uma analogia muito apropriada!
Na época do Antigo Testamento, Deus teve dificuldade em tirar os filhos de Israel da idolatria do Egito e foi obrigado a usar a Lei Mosaica para lhes ensinar verdades simples, valendo-se de pequenas lições práticas e cerimônias, tais como o Tabernáculo, a Arca da Aliança e o sacrifício de animais. Eram protótipos, sombras e meras ilustrações das realidades espirituais e das verdades eternas às quais Ele estava tentando guiá-los, quase como se faz com as crianças. Ele teve de aproveitar o que eles entendiam, ou seja, os modelos e as cerimônias com as quais estavam acostumados por causa das religiões do Egito e das outras nações pagãs da região. Fez como um pai faz quando usa recursos audiovisuais para transmitir aos filhos as verdades espirituais da verdadeira adoração madura a Deus. Como diz o Apóstolo Paulo, essas coisas eram “figuras” (Romanos 5:14), ilustrações das realidades invisíveis do plano espiritual!
Paulo diz: “Mas, quando vier o que é perfeito, [quando nos juntarmos a Jesus no Céu], então o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino. Mas logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Agora vemos em espelho, de maneira obscura; então veremos face a face. Agora conheço em parte; então conhecerei como também sou conhecido” (1 Coríntios 13:10-12).
Paulo estava dizendo que até os dons do Espírito desta era do Novo Testamento são quase como brinquedos, presentes de um Pai amoroso para Seus filhinhos de entendimento limitado, para ajudá-los a entendê-lO e a Sua vontade. Sendo assim, as lições práticas e elementares de adoração no templo no Antigo Testamento eram, sem dúvida, como brinquedos para crianças ainda mais imaturas espiritualmente, para ajudá-las a compreender o amor do seu Pai celestial!
Mas, “havendo Deus outrora falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hebreus 1:12).
Quando Jesus veio, Ele disse à samaritana que encontrou junto ao poço: “Mas vem a hora, e já, chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois o Pai procura a tais que assim O adorem. Deus é Espírito e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade” (João 4:23-24). Esta é a era espiritual na qual estamos vivendo.
Mas Paulo vai ainda mais longe em sua predição aos primeiros cristãos da cidade de Corinto e diz que chegará a hora em que veremos Jesus face a face e que deixaremos de lado esses dons infantis de comunicação espiritual. Porque “havendo profecias, cessarão; havendo línguas, desaparecerão; havendo ciência, passará. Pois em parte conhecemos, e em parte profetizamos, mas quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado” (1 Coríntios 13:8-10). Até mesmo o que temos agora é apenas uma amostra das gloriosas realidades que estão por vir!
No Antigo Testamento, eram as ilustrações; na era atual do Novo Testamento são as verdades espirituais que no momento temos apenas por fé. (João 1:17). Quando Jesus voltar, nós O veremos tal como Ele é, seremos literalmente como Ele e vivenciaremos a plenitude das realidades divinas e do mundo por vir! “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque assim como é, O veremos”. (1 João 3:2).